"Nossas almas são um prisma por onde percebemos, interpretamos e concebemos a realidade; as palavras que ouvimos e aprendemos, são a base de nossos pensamentos; foram apreendidas de modo muito singular, envoltas em afetos, emoções e gestos familiares. Falamos a mesma língua, mas damos significados diferentes às palavras, como se possuíssemos um dialeto próprio e sem a menor consciência deste processo, erguemos nossas certezas, as quais apenas nos servem de âncoras, que nos afastam e nos distanciam do Outro em sua radical estranheza, em sua absoluta diferença. Assim, compartilhamos (?) experiências e nos comunicamos (?), e não percebemos que somos poemas: eis então que demandamos sentido e compreensão como se a poesia tivesse que se transformar em prosa, em conhecimento, ocupando cada pedaço da página, cada vazio de significação, cada enigma do ser."
(Ver conceitos de "equivocité" e "verdades locais" do filósofo francês Blaise Pascal no livro "Conhecimento na Desgraça" do Prof. Luiz Felipe Pondé)
Ana Mariza
"...Por influxo desse excesso e abundância envolvendo a experiência mística, a linguagem percebe-se portadora de uma precariedade que lhe é inerente, mas nem sempre tematizada. Portanto, no afã de traduzir em linguagem a experência mística, João da Cruz depara-se com a inadequeção de seu vocabulário, que, diante do Mistério, é escasso. E aqui entra sua originalidade e criatividade para corresponder à sua "impossibilidade de calar".Sua palavra poética tem, portanto, "a força, o poder de fazer visível o que é invisível sem apoderar-se dele. Alojar o inefável no discurso: daí a máxima audácia e o paradoxo do místico."(37)..."
in A Mística do Coração
de Carlos Frederico Barboza de Souza
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Dentre nós, alguns psicanalistas costumam dizer que quando Pedro fala de João, fala mais de Pedro do que de João. Melhor dizendo: é frequente projetarmos sobre os outros o que não sabemos de nós mesmos. O orgulho e a frágil "segurança" entretanto de nossa racionalidade, não permite que vejamos com bons olhos a idéia de que muito do que somos foge a nossa consciência e portanto ao nosso domínio.
O apóstolo Paulo numa de suas mais belas epístolas, destinada aos Romanos, ele escreve: "...o bem que quero não faço e o mal que não quero, esse eu pratico..."
Fico pensando como a vida poderia ser mais tranquila se, entre outras coisas, fôssemos um pouco mais humildes diante de nós mesmos e como desdobramento, seríamos bem mais tolerantes com o próximo. Aceitando nossas contradições, nossa dificuldade de amar e se deixar amar, nossas falhas, nossa miserável condição, talvez julgássemos menos os outros e conseguíssemos ser mais generosos com nossa própria espécie."
Ana Mariza
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Acho por vezes engraçado, outras tantas vezes deprimente observar como as pessoas acreditam em si mesmas e fazem delas próprias grandes ídolos, mitos que revestem figuras idealizadas por seus antepassados e, auxiliadas pela literatura de "auto-ajuda," sem que percebam, usam um modo de pensar que teve seu início na Antiguidade Grega,atravessou a Idade Média e chegou ao mundo atual chamado por muitos de Pós-Moderno,tendo seu apogeu no pensamento do filósofo francês René Descartes e sua famosa expressão:"Penso, logo sou".
Fico sempre muito impressionada quando participo de certas conversas e argumentações, em torno de assuntos bastante interessantes até, mas sustentados numa forma de pensar tão antiga, tão pobre e tão reducionista.
O que nem todos sabem é que o grande pensador para formular seu pensamento,criou o método da dúvida, inventou o sujeito da certeza e utilizando a Verdade simbólica da existência de Deus, como garantia do ato de pensar a verdade sobre o ser, inaugurou a Era Moderna.
Filósofo de imensa profundidade em sua argumentação, privilegiou a Razão e proporcionou ao homem assumir o lugar antes ocupado pelos deuses, fundando o surgimento da ciência, da tecnologia e nos legou em consequência uma mítica idéia de autonomia do indivíduo através do uso de sua racionalidade e a permissão para o progresso e mudança nas relações de trabalho,o que propiciou uma relação do homem com o tempo baseada na utilidade.
Chegamos assim, ao século XXI entre otimistas e pessimistas, mas verdadeiramente perplexos com a fragilidade das relações afetivas, as quais em nome da Liberdade se liquefazem sem escrúpulos; enquanto isso, somos consumidos pela corrida em busca de "brinquedinhos" eletrônicos que levam às multidões a falsa impressão de poder sobre a máquina e domínio sobre a vida.
Uns parecem perguntar pelos dois outros pilares da Revolução Francesa: Onde estão a Fraternidade e a Igualdade? Outros, tímidos,diante as incertezas do futuro,tentam ressuscitar lemas da década de 60, do século passado, sem se darem conta do pobre "happening" que foi o "movimento hippie".
Enfim, o que vivemos é uma grande confusão principalmente entre palavras como certeza e verdade (herança cartesiana?) o que simplifica aparentemente o humano e complica a vida: a primeira é geralmente ilusória e a segunda, inexprimível em sua totalidade na linguagem prosaica. Mas como os mitos servem inclusive para apaziguar a angústia de existir e não saber o que isso significa, a ilusão da racionalidade pura, "resolve" o maior dos enigmas e nos deixa arrogantemente aliviados."
Ana Mariza
Fico muitas vezes perplexa com a confusão atual entre palavras que guardam entre si enormes distâncias... Por exemplo: informação, erudição,conhecimento e sabedoria."
A informação é algo que raramente se acumula; tem a característica intrínseca de ser dinâmica, mutável, relativa, efêmera.
Já a erudição é o acumulo de informação, acompanhado geralmente de profundidade em um ou vários assuntos, mas é fruto de grande dedicação intelectual que não necessáriamente implica em mudança ou em transformação pessoal, muito menos em produção criativa sobre a matéria. Creio que todos conhecem alguém que sabe citar grandes filósofos, escritores, poetas ou mesmo grandes descobertas científicas mas que jamais sintetizam o assunto com suas próprias palavras. É claro que existem exceções, mas que apenas confirmam a regra.
Já o conhecimento, pede profundidade não só intelectual, não apenas um esforço de raciocínio, mas torna-se uma elaboração que envolve o estudioso na apropriação do assunto à sua própria vida. Transforma-se no que a famosa filósofa Hanna Arendt chama de práxis, o conhecimento que transforma porque o ser do inteletual se deixa penetrar pelo que lê. Em assim sendo, pessoa pode até recorrer a citações para ilustrar seu pensamento, mas quando fala ou escreve, expressa seu conhecimento renovado por seu estilo. Já não precisa de "autorização" intelectual, de nenhum Outro utilizado como mestre de seu raciocínio ou mesmo e principalmente de sua vida. Sua produção não decorre de um processo de aprendizagem, mas de apreensão. Há uma elaboração composta pelas experiências vividas juntamente com a investigação cuidadosa e dedicada de determinado assunto ou situações. Posso dizer que tenho conhecimento quando consigo transmití-lo de forma singular, sem repetir ou distorcer mas pela intimidade passo a ter autoridade sobre o que digo, isto é, sou autor do que expresso porque a apreensão atravessa o meu viver e se incorpora ao meu cotidiano.
Ah! e a Sabedoria? Esta, só mesmo com letra maiúscula, intervalos e silêncios...A Sabedoria não se presta aos exibicionismos dos inseguros e muito menos às explicações e/ou "retóricas" para convencimento de outrem ou perversas maestrias.
Sabedoria é vida,caminho andado, de pés descalços e corpo desnudo de conceitos e preconceitos, armaduras que só os incautos necessitam...
Sabedoria é sangue quente, olhar profundo, tato, paladar, olfato e audição refinados,em respeito ao Tempo que não recua nem se repete.
Sabedoria é ir, se deixando..."
Ana Mariza
"Sempre me perguntam qual a diferença entre a Psicologia e a Psicanálise já que superficialmente, as duas "ciências" estudariam o comportamento humano, buscando formas de tratamento que trouxessem o alívio da angústia e das diversas formas com que se apresentam os sintomas de sofrimento.
As diferenças entretanto são radicais, isto é, se tomadas pela raíz: enquanto a Psicologia concebe o homem como um composto bio-psico-social, dando grande ênfase aquilo que ele conhece de si mesmo, à luz de sua consciência, de sua racionalidade, melhor dizendo, tudo quanto ele pensa de si, a Psicanálise tem como campo de estudo e prática, apenas o que nos escapa à consciência; tudo o que sentimos, pensamos, sonhamos, esquecemos e repetimos, sem que tenhamos qualquer controle sobre nossas atitudes. Sentimos como se fôssemos "dominados" por "algo mais forte que nós" e que nos faz repetir infalivelmente nosso "estranho jeito de ser" ainda que saibamos que não deveríamos ou queríamos agir deste ou daquele modo. Entendemos perfeitamente que algo está fora do esperado ou desejado por nós e por aqueles que nos cercam, mas e daí? Conseguimos por isso mudar, porque temos esse conhecimento? Não, pelo contrário, dizemos que é a nossa personalidade e pronto! Acontece que possuímos mecanismos de defesa para não nos angustiarmos com a nossa impotência diante de nós próprios, e nos justificamos, nos explicamos, nos avalizamos em nossa infância, em circunstâncias da realidade, e assim vamos contornando nossa "insuficiência", construindo certezas que nos valem como se verdades fossem, utilizando na maioria das vezes os outros para nos desculpar, e desta forma asseguramos nossa presunção, nosso orgulho, nosso egoísmo, nossas inseguranças, nossas vaidades, nosso famoso EGO. Assim, caminhamos em círculos de auto-enganos e de auto-justificativas pensando que andamos em linha reta, cumprindo nosso destino. Mas, e a Psicanálise? É aí nesta inconsistência, em nossas contradições e na convicção de que não somos o que pensamos, que o psicanalista pode contribuir; com sua escuta paciente, espera o que a pessoa não conhece de si mesmo, mas que aparece nas entrelinhas, nos brancos inexplicáveis do que fala, nos silêncios, nas pausas e nos gestos. O inesperado então, que não se explica nem se justifica, estranho que somos a nós mesmos, surge e surpreende quem antes só se decepcionava.
Quando pela dor, alguém humildemente, se cansa de tentar"driblar" sua impotência, consegue dignamente, viver sua angústia diante da própria vida, e se entrega à escuta de si mesmo, esta pessoa pode acreditar que a vida inclui, mas não se resume ao sofrimento e merece, como dádiva, ser celebrada".
Ana Mariza
"Por isso,vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes?"
Evangelho de Mateus,cap.5:vs.25
"...Parar não é interromper. Muitas vezes continuar é que é uma interrupção. O dia de não trabalhar não é o dia de se distrair - literalmente, ficar desatento. É um dia de atenção, de ser atencioso consigo e com sua vida. A pergunta que as pessoas se fazem no descanso é "o que fazer hoje?" - já marcada pela ansiedade. E sonhamos com uma longevidade de 120 anos, quando não sabemos o que fazer numa tarde de Domingo..."
"Somente poderão compreender a religião os que entenderem sua profundidade, aqueles que puderem combinar a intuição e o amor com o rigor do método, os que forem capazes de encontrar categorias que se amalgamem com metais puros e consigam forjar o imponderável, numa manifestação incomparável, singular.
Abraham Joshua Heschel